segunda-feira, agosto 20, 2007

Me(u) desafio

Depois de dias de muita chuva preguiçosa e atípica, um pouco de sol.
Caminho pelas ruas vazias de Barcelona. É cedo. As ruas desertas, lojas fechadas. Mês de agosto, a cidade está de férias. Não caem pingos na minha cabeça, pois ninguém ligou seus aparelhos de ar condicionado. Hoje o dia está fresco. Olho para dentro de um café, onde um quarentão toma seu cortado feito de café brasileiro servido por um chinês, que espia a televisão pequena. Notícias – provavelmente do furacao no caribe – vêm em forma de imagens sujas de grao borrado. Sigo caminhando até minha rua, pensando nem sei bem no quê. Isso é Barcelona, isso sou eu aqui, isso é a vida de hoje. Em uma quadra, vi uma amostra grátis do mundo.

Uma melancolia me aperta o peito. Como é que podemos ter tantas certezas e no minuto seguinte, tantas dúvidas? O que era o quase certo se torna tao certo que dá medo. Eu e meu medo do aburrimento (tédio). As pessoas falam em medo de mudança em seus livros de auto-ajuda e gestao empresarial, e eu com esse pavor da mesmice. Tenho consciência do meu aburrimento com pessoas e lugares. Me aburro, me aburro, me aburro. Me aburro com um trabalho depois de um tempo, me aburro com namorados, com cidades e até com amigos. Começa a me dar uma coceira, uma brotoeja, tenho que sair correndo, suar, escalar uma montanha, mudar os ares, mudar de pessoas. Me pergunto se um dia isso vai mudar em mim. Me pergunto se um dia vou sossegar. Essa fase da minha vida é uma prova de fogo pra mim, justamente por causa desses sinais de estabilidade.

Um ano mais na mesma cidade, Carol. É... Outros quantos meses em Barcelona. Um contrato assinado de mais um ano no mesmo apartamento. Logo eu, cansada de me mudar, agora tenho uma invejinha reprimida de quem está se mudando e sinto a caneta tremer na mao. Por quê??
Ficar aqui também é assumir compromissos outros, mais pessoais. É estar (e apostar) no relacionemento mais concreto que tive nos últimos anos. É.. pois é. Apavorante, às vezes, a idéia de que não vai dar certo, de que ele vai mesmo me trair, de que eu vou trair ele, de que eu tenho ataques de raiva ridículos, de eu ser egoísta pra caralho, de ele me achar insegura, de eu me achar insegura e de eu odiar me ver insegura e de que eu nao posso ser assim tao exigente comigo mesma. Ai. Fácil mesmo é mudar. O complicado é segurar na mao de alguém e mergulhar fundo, pegar a caneta com firmeza e assinar o contrato de aluguel.

Que bom. Vontade é o que nao falta.
E, olha só, menina gulosa pelo mundo: de tanto divagar sobre a tua inquietude pelo novo, tu te deste conta de que é na concretizaçao das coisas da tua vida que está a mais nova montanha a ser escalada. Pronto, encontraste tua novidade.

6 comentários:

Míss.il disse...

Li, re-li e te entendi. me entendi.
esse medo de aburrecer aparece por aqui tbm (acho que por aqui mais ainda), certezas e dúvidas num piscar de olhos. paixao que consome e que dá medo.

a vida é uma montanha...russa. e eu tô aqui esguendo a tua mão pra cima.

Míss.il disse...

erguendo, as I said.

martina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
martina disse...

Acho que minha mae mente pra mim. Devo ter duas irmãs (elas gemeas, eu nao fiz parte da mesma gestação) pelo mundo. Uma tira as palavras da minha cabeça! My god!

alice disse...

buenas, eu como legítima gêmea, ainda me assusto. mais do mesmo, e, mesmo assim, ainda mais me admiro.
sim, encontraste tua novidade! te saúdo, a saúdo, a novidade.
e eu, que mudar de cidade, até, mudei, mas no mesmo encontrei o novo.
também!

maria luíza sá e madureira disse...

que bonitinha! (olha eu, comentando no teu blog, pode?)

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